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Liberdade da fala e persuasão do discurso lido.

Escrevendo já há tempos uma coluna mensal neste que creio já deva ser o jornal jurídico de maior tiragem no país, habituei-me a algumas conseqüências que, para mim, eram inusitadas: desde receber e-mails interessantíssimos, com sugestões sobre temas, que muitas vezes aproveito; ou relatos curiosos de discursos, que me servem de exemplo; ou crítica sobre algumas de minhas afirmações - as quais, sei, não agradam a todos. Ou até aquele indivíduo que, encontrando-me em lugar público como uma livraria, dialoga comigo com a naturalidade de quem me conhece há longa data, sem jamais me haver visto pessoalmente: está familiarizado com meu texto. E pode existir algo mais gratificante?

            Mas desta vez a situação foi mais curiosa: recebi uma mensagem eletrônica de alguém que ocupava uma função - pública ou privada, pouco importa - muito elevada. Seu nome eu já conhecia, um grande profissional. A mensagem pedia que eu lhe fornecesse um contato telefônico, pois a pessoa tinha interesse em uma entrevista comigo. Contato feito, fiz o convite para que viesse ao escritório, mas o profissional recusou-se, e vieram as justificativas e propostas: tempo escasso, reuniões, envio-lhe um carro, parece que não estamos tão distantes...

            Dois dias depois estava eu em sua sala, pisando em seu tapete verde felpudo e sentando-me em cadeiras de couro bege. Logo notei que ele tinha ar simpático e, mais, uma boa assessoria: sobre sua mesa um volume de um livro meu e um exemplar deste jornal, de alguns meses passados. Nos apresentamos muito objetivamente, e ele me expôs seu problema, não exatamente com estas palavras: “Tenho uma fala importantíssima para fazer daqui a seis dias exatos. Escreveram-me o discurso e eu não gostei. Sinto-me inseguro, e gostaria de saber como melhorar as duas coisas: o discurso e a leitura dele em público.”

            O que eu pensei de imediato foi o que o leitor desta coluna já imaginou: como alguém que alcança alto cargo pode estar tão inseguro para falar em público? Mas eu digo que isso é comum, e que, realmente, a ocasião, para a pessoa em questão, era especial. Digna de causar um pouco de medo, se assim se pode dizer. No meu ponto de vista, entretanto, a questão que deveria ser colocada era outra: o senhor tem certeza que quer ler esse importante discurso? Para isso me chamou aqui?

            O homem pediu licença para fumar (péssimo não só para seus pulmões, doutor, mas para sua imagem) e, enquanto acendia o cigarro, perguntou:

            _ E qual a diferença prática entre ler meu discurso e falar de improviso?

            Excelente pergunta, pensei, e fiz um ou outro comentário enquanto planejava a resposta em minha mente. Estava certo de algo: se o homem era mau orador, era um ótimo executivo: com esse questionamento, ele apenas me testava. Porém, o teste era interessante, e acho que a resposta interessa a muitos. E ela, a minha resposta, foi mais ou menos assim:

            I - Primeiro, doutor, vamos retificar sua questão: a diferença reside entre ler o discurso ou pronunciá-lo sem leitura. Não sugeri que falasse de improviso, pois o senhor não está sendo pego de surpresa: tem prazo para planejar, memorizar e ensaiar. Se não dispõe de tempo para isso, é porque não está dando devida importância para o evento. Esse não é o caso, não?

            II - Segundo: as vantagens de ler o discurso. Elas são poucas, mas tão evidentes, que não deveria ocupar-me delas. Mas vamos lá: a) o discurso lido dispensa memorização, pois está preservado no papel; assim, evita a ocorrência do branco e, com isso, poupa-lhe de um nervosismo anterior, que eu posso notar em sua fisionomia. Essa insegurança nada mais é do que o temor de que, no dia do discurso, sua memória lhe falhe; b) o discurso lido permite a seleção de todos os vocábulos e frases com acuidade, pois é fruto de um trabalho de elaboração muito mais minucioso. Em outras palavras: há garantia que ele será fiel ao que foi planejado; c) e outra vantagem: segurar um papel lhe facilitará uma questão que se impõe a todo (mau) orador: “o que fazer com minhas mãos enquanto falo?”. Esse problema será eliminado, porque o senhor terá as mãos ocupadas com a papelada, o que lhe causará um grande alívio, pelo que se pode notar. Repare que o senhor fuma quando começa a falar a mim: uma de suas mãos já está ocupada com o cigarro. Bom, já encontramos uma utilidade para seu vício, mas lembre-se que não poderá fumar em seu discurso, de acordo?

            III - Terceiro, as desvantagens do discurso lido, começando pela mais evidente: a) o auditório terá, logo no início de sua fala, a indelével impressão de que o senhor não é o autor das palavras do texto. Isso é péssimo, porque o senhor deve falar aos ouvintes para demonstrar as suas idéias, e não para ocupar-lhes o tempo como se fora um mestre de cerimônias; b) todos os seus gestos perderão parte da eficácia, não só porque o auditório diminuirá a atenção visual a sua pessoa, mas porque o ato da leitura, naturalmente, não admite gesticulação. Ou seja, qualquer sinal que o senhor fizer com o corpo, que em condições normais serviria de realce a uma idéia, na leitura - agora sim - parecerá ensaiado e falso, ainda que não o seja. Assim seu poder de persuasão enfraquece ainda mais; c) depois: os olhos são a janela da alma, não é o que dizem? Pois, o senhor não pode manter os olhos no papel e no auditório ao mesmo tempo. Isso é tão evidente que não necessitaria ser dito. Mas digo mesmo assim: o senhor - com sua experiência como profissional, político, negociador ou o que seja - confia em alguém que lhe fala sem mirar-lhe nos olhos? Não. Então, como pode esperar que seu auditório confie em um discurso feito com o olhar desviado a folhas digitadas?

            Terminei dizendo ao homem que os bons oradores não lêem discurso, em hipótese alguma. E que aqueles oradores que lêem textos muito longos, somente encontram platéia em seus bajuladores, como acontece com alguns estadistas, que já estão em seu ocaso. Ele sabia de quem eu falava. Convencido o profissional, passamos a falar sobre o conteúdo do discurso em si.

            Semana passada eu telefonei ao profissional, perguntando se eu poderia, sem identificá-lo (porque não há motivo para isso), publicar nossa conversa nesta coluna.

            _ Mas você não vai me comprometer? - questionou.

            _ Não, respondi. Sigilo. E, se eu descrever, no meu texto, seu escritório, altero a cor do tapete e do couro da cadeira em que sentei.

             _ Tudo bem. Mas qual será o assunto da sua coluna?

            _ Falarei dos grandes oradores, que nunca lêem discurso, e por isso são convincentes.

            _ Ótimo - ele respondeu, certamente empolgando-se ao lembrar de nosso diálogo - Diga o que quiser.

            _ Direi a verdade.

            _ Valorize! Diga que me transformaste no Hugo Chávez!

            “Deus me livre”, pensei.

Víctor Gabriel Rodríguez
Mestre e doutorando em Direito penal pela USP, autor de Argumentação Jurídica: Técnicas de Persuasão e Lógica Informal, com 4ª Edição pela Editora Martins Fontes, professor no Unibero e na Escola Superior de Advocacia.
E-mail: victorgabrielr@hotmail.com

Jornal Carta Forense, Folha do Acadêmico, Abril 2007, p. F12

LIBERDADE DA FALA E PERSUASÃO DO DISCURSO LIDO.

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