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Só faltam as provas.
A polícia diz ter certeza de que Carla Cepollina matou o coronel Ubiratan. Mas a esperada confissão não veio. E ela pode ficar livre.

David Cohen - Revista Época, Edição 437, 02/10/2006

ESPECIAIS



 

Cem por cento de certeza." Foi assim que o delegado Armando de Oliveira Costa Filho justificou o indiciamento, na quarta-feira 27, da advogada paulista Carla Cepollina pelo assassinato do deputado estadual e coronel da reserva Ubiratan Guimarães. Carla era a primeira suspeita. Após 18 dias de investigações, a polícia se convenceu de que foi ela a autora do disparo na barriga do coronel, no dia 9. Um dia após o indiciamento, sua mãe, a também advogada criminalista Liliana Prinzivalli, dizia estar se preparando para um possível processo. Não o criminal. Um processo de indenização por danos morais. "Assim que Carla ficar livre das acusações, vou entrar com uma ação contra o Estado", disse em entrevista a ÉPOCA.

Carla foi fichada na delegacia de homicídios de São Paulo durante um interrogatório que se arrastou por 14 horas, dividido em dois dias. Era uma prova de resistência. Os policiais diziam acreditar que, confrontada com as evidências, Carla confessaria o crime. Ela negou. Sustenta sua versão de que, quando saiu do apartamento do coronel, ele estava vivo. Segundo sua mãe, a defesa vai alegar a inocência de Carla até o veredicto do júri popular. Ela deverá ser julgada por homicídio duplamente qualificado: motivo fútil (ciúme) e impossibilidade de defesa da vítima.

Mesmo se Carla for culpada, a estratégia de negar a autoria do crime faz sentido. Uma confissão lhe traria pouco benefício. Ela está sujeita a uma pena mínima de 16 anos de reclusão, contando o acréscimo de um terço de sentença porque a vítima tinha mais de 60 anos. Se confessasse a autoria, Carla seria beneficiada com redução de apenas um sexto da pena. "O homicídio doloso, por lei, não prevê acordos", diz o advogado Romualdo Sanches Calvo Filho, presidente da Academia Paulista de Direito Criminal. "Muitas vezes a promotoria e a defesa chegam a um consenso extra-oficial, mas no caso de Carla dificilmente a promotoria fará acordo."

A negociação é dificultada por causa da repercussão do caso, que envolveu uma figura emblemática do país. O coronel Ubiratan foi o comandante da operação que resultou na morte de 111 presos da Casa de Detenção do Carandiru, em 1992. Candidatou-se a deputado - e venceu - com o número 111. Sofria ameaças de morte e, por isso, andava com três armas. Nos últimos meses, em sua campanha de reeleição, tinha se afastado dos filhos, supostamente para preservar sua segurança. É irônico que sua morte tenha sido causada, segundo a polícia, por ciúme, e com a própria arma.

Carla, de 40 anos, uma advogada bem-nascida que estudou na Itália e fala cinco línguas, assídua freqüentadora das badaladas tardes da Hípica Paulista, o namorava desde 2004. Teria ficado enfurecida por causa de telefonemas de outra mulher, a delegada federal Renata Madi, de 25 anos. Renata ligou duas vezes para o coronel no dia de sua morte. Na segunda vez, às 20h26, Carla disse que ele estava dormindo. Segundo a perícia, o coronel morreu entre 19h30 e 20h30.

"É tudo uma grande conspiração para encontrar um culpado", disse Carla a ÉPOCA. "Vou alegar inocência até o fim." Sua defesa se apóia na falta de provas contundentes. "Supondo que Carla tenha matado o coronel, a negação do crime visa lançar o espírito da dúvida no juiz e no júri", diz Calvo Filho. A tese de alegar inocência, mesmo quando os indícios são fortes, é comum em casos em que há carência de testemunhas ou provas materiais inquestionáveis, como a arma usada no crime ou presença de sangue em roupas.
A situação pode mudar nesta semana, quando for divulgado o laudo completo da análise das roupas que Carla entregou à polícia e dos objetos retirados do apartamento do coronel. Alguns peritos do Instituto de Criminalística da Polícia Civil disseram à imprensa que resíduos de pólvora e enxofre foram encontrados na calça usada por Carla no dia do crime. Esses vestígios são encontrados normalmente em roupas de pessoas que fizeram uso de arma de fogo.

Sem essa prova material, a promotoria ficaria restrita aos demais indícios. O primeiro é a suposta briga entre Carla e o coronel pouco antes do crime, relatada pela delegada Renata. No primeiro depoimento, Carla disse que discutiu com Ubiratan. Depois, voltou atrás em sua declaração. O segundo indício seria o relato de alguns vizinhos. Eles disseram ter ouvido um estampido no horário em que Carla estaria no apartamento. O terceiro indício é a análise da cena do crime. Pelo ângulo de entrada da bala no corpo do coronel, o assassino teria entre 1,76 e 1,78 metro. Carla tem 1,72 metro e usava um salto de 5 centímetros naquele dia. Outro indício é uma suposta mancha de sangue nas roupas dela.

O promotor Luiz Fernando Vaggione, responsável pelo processo, disse que deverá denunciar Carla à Justiça em no máximo 15 dias. Segundo Carla, o indiciamento foi "feito sem nenhuma prova técnica, baseado em suposições e indícios que não mostram nada". Ela tem passado os dias isolada, na companhia de uma amiga, e diz estar recebendo constantes ameaças de morte. Afirma estar "vivendo um inferno".

Só faltam as provas.
A polícia diz ter certeza de que Carla Cepollina matou o coronel Ubiratan. Mas a esperada confissão não veio. E ela pode ficar livre.

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