Homenagens

Era o ano de 1985 e eu, por misericórdia do bom Deus, heroicamente tornara-me segundo anista da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Digo heroicamente porque mais não enxergava do que enxergava, com uma visão apenas monocular do olho esquerdo, a qual também estava por um fio, como já me alertavam os especialistas. Mesmo assim, insistia em caminhar porque tinha que caminhar. Precisava caminhar sem ombro para me lamuriar, eis que não queria me tornar um cara chato e piegas, considerando que todos tinham lá seus problemas e cruzes para carregar e não seria eu que engrossaria a lista delas!

 

Só sabia que caminhar era preciso e Deus tomaria os caminhos, o que de fato aconteceu nesse mesmo ano de 1985, quando tive o privilégio de conhecer a simpática, generosa e laboriosa judia alemã, Sra. Kaete Heymann, a qual desenvolvia um trabalho filantrópico de gravação de livros, ainda em fita K7, aos portadores de deficiência visual, como era o meu caso e de centenas e muitas centenas de outras pessoas nessa mesma situação, as quais valeram-se desse desprendimento para seguir adiante na vida, em diversas carreiras, ofícios, artes etc., certo que essa verdadeira flor de Berlim substituía com muito amor e dedicação aquilo que nos faltava por permissão divina, o que foi ainda para mim mais importante no ano de 1987, momento em que mais uma vez não podia pensar muito e só seguir adiante sem olhar para trás (até porque se olhasse para trás, não conseguiria literalmente ver nada), quando então nada mais podia ler, uma vez que o resquício de visão que ainda agonizava no meu olho esquerdo sofrera duro golpe e desaparecera de vez, restando-me assim a doce suavidade da meiga voz da Sra. Kaete Heymann que pacientemente ouvia por meio de fitas gravadas por ela por horas e horas debruçada sobre aqueles cansativos e extensos livros de Direito, quando não enfadonho para os leigos, cujo resultado era a boa compreensão da matéria ouvida, com reflexos positivos em todas as provas da faculdade e já depois como profissional do Direito.

 

Essa incansável peleja de Dona Kaete de gravar livros e mais livros a meu pedido, perdurou por cerca de 20 anos, cuja Audioteca particular minha afortunadamente contém ainda inúmeros livros com seu timbre angelical de voz, onde agora poderei matar a saudade não só do conhecimento, mas também saudade daquela terna voz que, a rigor e por mérito, merece uma fatia generosa do meu conquistado diploma de Direito, como ela certa feita sorridentemente sugeriu-me em tom jocoso!

 

Essa flor judia brotou em 15/02/1921 na Alemanha (coincidentemente no mesmo dia e mês do meu aniversário), vindo ainda adolescente e com sua família ao Brasil, onde se transformou em flor maior do vasto orquidário que tinha em sua própria casa, com mais de mil exemplares, deixando ela esse jardim em 06/09/2014, eis que seu inconfundível perfume, agora mais excelente pelo passar do tempo, chegou até as narinas do Todo Poderoso, o qual não perdeu a oportunidade de arrebatá-la para o seu jardim particular.

 

Em célebre ensinamento atribuído ao Rei Salomão, no Livro de Eclesiastes (Capítulo 9, Versículo 10), ele aduz que: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra, nem indústria, nem ciência, nem sabedoria alguma.” Dona Kaete Heymann seguiu à risca esse conselho, acrescentando ainda a caridade, o zelo, a humildade, o firme entusiasmo pela vida e, acima de tudo, incondicional fé no mesmo Deus dos judeus e dos cristãos.

 

Receba assim, minha querida senhora Kaete Heymann, novamente minha gratidão, mãe de todas as virtudes, além desta simples, porém, muito sincera e póstuma homenagem.

 

Romualdo Sanches Calvo Filho

Advogado e Presidente da APDCrim

Dezembro/2014

 

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/09/1517174-kaete-heymann-1921-2014---gravou-um-acervo-de-livros-em-fita-cassete.shtml

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